Salve! Trago aqui algumas ponderações sobre debates. Em um mundo com 7 bilhões de pessoas distintas, ideias polarizadas, diferentes conhecimentos nas mais diversas áreas, não é difícil encontrar ocasiões onde um debate seja necessário. Mas, como ele é feito?


Hoje em dia vemos debates para todos os lados. Política, Cultura, Esporte, Saúde etc. E com eles ânimos exaltados, espectadores, diversas mudanças de tom e postura. Isso é uma boa discussão, não? A meu ver, não.

Vamos imaginar uma situação hipotética: De acordo com a estrutura atual do sistema não é possível a implementação de uma determinada história de negócio com uma implementação habitual, havendo a necessidade de alteração na arquitetura da aplicação. Um desenvolvedor do time sugere uma abordagem simplista. Outro diz que essa sugestão fere algum design pattern. Outra desenvolvedora sugere uma abordagem mais estruturada adicionando mais alguns serviços e modificando a arquitetura. Outra diz que tem uma lib que ela conhece que resolve isso fácil, fácil. A discussão já tem duas horas, rolaram algumas ofensas subliminares e todos estão extremamente nervosos e cansados. Acabou que a implementação adotada foi a do desenvolvedor mais insistente e os outros a aceitaram pelo cansaço. Ele ficou orgulhoso de sua solução ter sido aceita. Solução essa que não atendia a necessidade inicial e era mais custosa. Acho que acabei por dar um exemplo muito fora da realidade; isso nunca aconteceria. (sarcasmo)

Se você é o líder desse time, ou se trabalha nele, tenho 2 coisas a contar: isso não é uma discussão, nem é um time. Para avançarmos temos que estabelecer o que é uma discussão. Segundo o dicionário Oxford é um exame minucioso (de um assunto, problema etc.), levantando-se os prós e os contras. Já um debate é luta em defesa de uma causa. Se formos além, até a dialética de Platão, a discussão ou debate deveria ser um meio de chegarmos a uma verdade. Não a uma vitória.

Menos emoção e mais razão

Recentemente a Gabriela Priori, mestre em direito penal e advogada, apresentou um TEDx Talk aprofundando uma frase na qual abre os vídeos em seu canal no youtube “Menos emoção e mais razão". E ela discorre sobre como as discussões políticas têm um apelo mais emocional que racional, onde a concordância normalmente se dá mais pela afinidade do proponente do que pela motivação e méritos de determinada causa. Ao longo da palestra ela lembra que não há alguém estritamente racional 100% do tempo e da relevância da emoção na defesa de uma ideia, ou em um debate. Tendo ciência dessa relevância tornaríamos, segundo meu entendimento, o debate mais centrado nas ideias e no objetivo do que no ímpeto de vencê-lo, por exemplo.

Então, na situação “hipotética” acima, como poderia ter se dado o debate? Há algumas estruturas para debates formais. Segue uma sugestão, um modelo simples para nossas “hipotéticas” discussões de tecnologia:

  • Estabeleça o objetivo da discussão
  • Colete as ideias
  • Peça a apresentação das mesmas
  • Colete pontos positivos e negativos de cada uma
  • Vote

Muito racional, não? Até demais. Sinceramente não gosto desse modelo, mas fique livre para tentar caso sinta que funcione para ti. Prefiro uma outra abordagem mais natural.

Cultura Criativa

O grande problema é que todos crescemos em um ambiente no qual discussões são ringues, onde deve haver um vencedor. A discussão normalmente “avança” para que haja um dono da verdade. Esse tipo de discussão, que vemos o tempo todo no trabalho, no campo político, religioso e até mesmo dentro de casa. Spoiler: não há avanço nenhum aqui. Quem tiver o melhor discurso, estiver emocionalmente mais tranquilo ou souber manipular as emoções da outra pessoa vai “ganhar” o embate. Embora ninguém saia vitorioso desse tipo de comportamento.

Minha proposta é de ambientar o time em uma cultura de discussão, ou Cultura Criativa, como gosto de chamar. Não as discussões que exemplifiquei antes, mas sim discussões saudáveis. Como líderes temos o papel principal de criar e manter um ambiente saudável para todos no time e organizar o sistema para chegarmos a um objetivo comum, como já havia dito em outro texto. Uma das faces desse ambiente é proporcionar a discussão saudável de ideias, sem receio de alguém achar a ideia boba ou sem sentido.

Na Cultura Criativa as pessoas são realmente ouvidas e suas falas são interpretadas sem a maquinação de uma resposta. Cada ideia é compreendida, aceita ou não dentro do entendimento prévio de cada indivíduo e adaptada para aproximar-se cada vez mais do objetivo em comum de todos. Utopia? Seu time nunca faria isso? Quando você deu uma chance para isso acontecer? Digo que não só é possível, como é um caminho mais natural para chegar a qualquer decisão coletiva.

Que tal ouvir mais seu time? Seus parceiros? As pessoas responsáveis por você? Um objetivo coletivo é impossível de alcançar individualmente, ou por só uma verdade. Tenho plena certeza de que minhas decisões foram as mais acertadas quando eu menos falei. Quanto mais escutei, mais acertei. Isso nem de perto é falta de personalidade. É a principal característica do líder que busco ser. Tomar decisões não por vaidade, mas sim por ter compreendido adequadamente e respeitado a experiência e intelecto das pessoas para quem eu trabalho - o time.


Concluindo, discussões sem abertura, compreensão, transparência e, principalmente, respeito não vão levar você ou seu time a lugar algum. Escutar e confiar no time são fundamentais para alcançarmos objetivos que buscam a excelência técnica e profissional. Escutar sem ficar buscando a falha na fala do outro ou mesmo pensando em uma resposta, nos faz melhores. Decisões tomadas considerando o maior número de informações, experiências e fatos serão melhores em todos os aspectos.

E qual seria o problema se o time tomasse parte das decisões? Essa resposta tratarei com o mesmo cuidado de sempre em um novo texto.

E você? Com quem vai debater hoje?


Capa por Goutham Ganesh Sivanandam @ Unsplash