Salve Pessoal!

Hoje vamos falar sobre essa coisa do “Novo Normal” e sobre minhas percepções a respeito do futuro. O que ainda enfrentaremos ao longo dessa pandemia e o momento posterior. Quero discutir sobre a necessidade da rotulação, o que de fato está acontecendo e como, na minha opinião, devemos considerar que estamos em processo adaptativo.

Tempos de mudanças

Estamos atravessando uma pandemia e não, nada deve ser considerado normal, quiçá “Novo Normal”. Estamos vivendo tempos difíceis, que devem ser considerados exceção. Isolamento e distanciamento social, higienização constante de tudo, atendimento diferenciado no comércio e unidades de saúde e atenção a atualização das recomendações sanitárias. Estas são exceções que o COVID-19 nos trouxe. Trabalho remoto, por exemplo, não é algo que deveria ter sido uma novidade.

Algo que o coronavírus agravou é a crise econômica mundial, que já despontava no sudeste asiático e oriente médio no início do ano. Nós no Brasil já sentíamos isso também, visto que o valor de nossa moeda flutuou até quase 50% até então, sofrendo aumento de 25% de janeiro a março, antes mesmo da quarentena ser instituída por aqui. No nosso caso, temos ainda que conviver com o circo político que tem mais destaque que notícias sobre a pandemia. Mesmo sendo o segundo país do mundo em número de casos e óbitos, somente atrás dos EUA (na data deste escrito).

Estamos vendo diariamente o melhor e o pior da humanidade. Em meio a uma crise sanitária, econômica e política ainda temos que, em pleno 2020, encarar episódios trágicos de racismo. Ver “pessoas” (com muitas aspas aqui) que não só se sentem superiores como incitam mais pessoas a ser. Se você está lendo esse texto e é desse “seleto” grupo superior, saiba que considero você um desperdício de carbono no mundo.

No meio desse cenário muita gente tem falado sobre o “Novo Normal”. Isso significa, de maneira rasa, considerar como normais as medidas que estamos tendo que tomar por conta de todas as mudanças que estamos enfrentando. Há muita discussão a respeito, inclusive de se “instituir” essa nova normalidade.

Adaptabilidade

Como humanidade estamos sempre em evolução. Vivíamos em pequenas e distantes concentrações de pessoas milênios atrás. Atravessamos oceanos há alguns séculos. Ficamos dependentes da eletricidade há décadas. Quem tem menos de 20 anos não faz ideia do que é um mundo sem internet. Trocamos o telefone pelo whatsapp como principal meio de comunicação nos últimos anos. O consumo de mídia está sob nossa escolha por meio do streaming e provavelmente você já havia pedido comida para o aplicativo antes da quarentena.

Tudo mudou. Em todos os lugares do mundo. Mesmo com a reabertura do comércio em algumas localidades agora, não há como prever um novo isolamento até que haja uma vacina. Estamos em estado de exceção. Mas na maioria dos lugares estamos nos adaptando. Ouço e leio vários relatos sobre como foi difícil o começo da quarentena e que o sentimento melhorou com o tempo. Há obviamente casos distintos, como pessoas que perderam seus empregos, perderam entes queridos ou adoeceram física ou psicologicamente.

O ponto aqui é que nos adaptamos. Sempre nos adaptamos. E, mesmo em um momento mais delicado como o atual, nos adequamos ao que estamos enfrentando. Pelo menos a maioria. Infelizmente, novamente na humanidade, uma minoria torna a vida da maioria mais difícil. Sim, estou falando de quem ignora as recomendações médicas arbitrariamente, nega a ciência, ou acha que o coronavírus é só uma gripezinha. Acredito fortemente que você faz parte da maioria sensata.

Novas regras, mesmo que por um certo período, pede novas medidas. Na vida pessoal temos a higienização de tudo o que trazemos para dentro de casa, além do cuidado com nosso próprio asseio. O próprio isolamento social que já citei. As redes sociais, além de diversos canais, dão dicas para nosso dia a dia - incluso um de meus últimos artigos. E quanto ao profissional?

Trabalho remoto

Para profissionais que não haviam experimentado ainda o trabalho remoto com certeza essa é uma experiência nova. Fazer um “escritório” em casa, separar ambientes, vídeo conferências, controlar o próprio tempo… é muita coisa para se adaptar - principalmente com o curto período que tivemos para isso. Para muitas pessoas tem sido incrível. Outros têm trabalhado mais do que se estivessem no escritório. Isso acaba mudando caso a caso, com o agravante da empresa e do gestor. Há quem aproveite da situação para tentar mascarar a ineficiência, mas ela só fica ainda mais aparente.

Há também o curioso caso dos gestores inseguros: aqueles que consideram que o time só trabalha sob sua cuidadosa supervisão. Estes são simplesmente inseguros. Que nunca acreditaram no trabalho remoto, pois sempre acharam que estar em casa levaria seus subordinados a não trabalhar ou procrastinar. Que surpresa tiveram nessa crise, não é mesmo?

Há também aqueles que não imaginaram que suas atividades pudessem ser feitas de uma maneira diferente. Líderes e liderados. Voilà. Não só, magicamente, descobriram que era possível, como descobriram formas mais eficientes de trabalhar. Muitas empresas já estão vendo oportunidades de redução de custos no meio disso tudo. Se não há pessoas nos escritórios, por que manter estruturas caras? Sem contar o bem estar que muitas pessoas estão aproveitando, mesmo em tempos de quarentena.

E há novas oportunidades, para o momento atual e para depois.

Oportunidades

Muitos negócios fecharam as portas por determinação sanitária. Os profissionais mais afetados foram os que lidavam com o atendimento aos clientes nestes negócios, ou seja, que depende da interação com as pessoas para exercer suas atividades. Aqueles cuja profissão naturalmente já não tenha muita oferta no mercado foram igualmente afetados. Os restaurantes que eram resistentes ao delivery tiveram que aderir, ou fechariam. Quem conseguiu fazer atendimento online (por whatsapp por exemplo) conseguiu continuar funcionando. Quem não conseguiu mudar…

Sim, estou sendo raso na afirmação acima. Há muitas atividades as quais não há meio de tornar online. Em sua maioria, informais. E não vou vomitar aqui uma solução milagrosa pois não a tenho. Assim como não há resposta rápida para tudo.

“Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer.” - Confúcio

Será que demora muito tempo para aparecer um marketplace para os pequenos ou informais? Ou será que as plataformas já existentes não estão pensando um jeito de viabilizar isso? Entendo que muitos dos casos que citei acima não têm tamanho ($$$) para esse tipo de operação. Mas fica aqui o questionamento: se não seria possível adaptar uma operação de loja ou mesmo de tenda para entrega online? E estou perguntando isso considerando tanto as pessoas que são donas desses negócios como as que poderiam oferecer a infraestrutura para isso.

Para as empresas de tecnologia o trabalho remoto sempre foi mais natural. Exceto sob más gestões. Sigilo? Mesmo dentro de um banco, com toda a fiscalização possível, são inúmeros os casos de vazamento de informações internas - quem quer dá um jeito de fazer. Na seção anterior mencionei as empresas que estão vendo que o trabalho remoto pode render economia. Creio que a maioria das empresas de tecnologia vão migrar para este modelo.

Outra oportunidade, para líderes e organizações, está em investir na estrutura para equipes remotas. Desde o onboarding ao dia a dia. Seja física, com cadeira, suporte, monitor etc. Seja emocional, dando a atenção que cada pessoa merece, com disponibilidade e compreensão. Promovendo a interação. Fazendo com que, já que é para ficar em casa, seja o melhor trabalho possível.

Somente mais uma, mas a meu ver a mais importante: investir em segurança emocional. Para seu time. Para si. Esta tempestade pela qual estamos atravessando está exigindo muito de nós com novas preocupações a cada instante. Mencionei que o coronavírus não trouxe o trabalho remoto, mas trouxe o isolamento - que está sendo desafiador para muitas pessoas. Caso não esteja bem, procure um profissional de psicoterapia, mesmo que considere não “precisar de tanto”. Procure oferecer canais para que seu time tenha acesso a esse tipo de profissional. Dê espaço para que você ou as pessoas a quem lidera possam frequentar as sessões.


Para mim não há novo normal. Enquanto não houver cura ou vacina para a doença estaremos em um estado de exceção. Após isso, sem o risco de desencadear contaminação ou algo mais grave, voltaremos a normalidade. Aquela que vivemos nos últimos dez mil anos na qual nos adaptamos, aprendemos e evoluímos dia a dia.


Foto de capa de Francesco Tommasini no Unsplash