Salve Pessoal!

Nestes tempos de isolamento físico muita coisa aconteceu. Muita gente incentivou a super produtividade, recomendou que deveríamos ocupar o “tempo livre” com cursos online. Se exercitar, aprender algo novo como cozinhar etc. Sem julgamentos a quaisquer dessas práticas, mas gostaria que fizesse essa reflexão: Isso tudo te faz bem?


Contexto

Antes de mais nada quero dizer que buscar fazer tudo ao mesmo tempo foi parte do que me levou à quase ruína. Demorou muito até entender que eu era incapaz de equilibrar tantos pratos ao mesmo tempo. Trabalho, família, relacionamento, comunidade, amigos… e nada de pensar em mim. Depois de ver tudo desmoronar e entender que eu precisava de ajuda (profissional), comecei um processo longo de me entender, dar o devido respeito ao meu corpo e a minha mente, e posteriormente à minha alma, para entender algo básico.

Ao longo da vida tive sempre o ímpeto de ajudar ao próximo. Talvez a adolescência na igreja, a origem simples, a educação da minha mãe e avó ou mesmo o próprio envolvimento com tecnologia. Com a terapia entendi outros tantos motivos para isso. Mas mais do que isso, aprendi uma importante lição. Uma simples, que você pode aprender em qualquer voo comercial: “(…) coloque a máscara primeiro em você, depois ajude a quem tiver dificuldade (…)".

“Ajude primeiro a quem pode ajudar o próximo”


Isolamento e mudanças

Com o isolamento veio uma mudança muito brusca. Para todos. As primeiras semanas foram dificílimas. Com direito a crise de pânico, entre outras coisas. Mas foi o vale nessa adaptação. Eu já tinha experiência com trabalho remoto antes - essa foi a parte fácil. Não estar próximo de pessoas, sendo essa uma das minhas principais motivações profissionais, foi o fato mais difícil de assimilar. “O que fazer para deixar minha família bem? Como vou fazer para manter o time tranquilo no meio disso tudo?” eram as perguntas que eu mais me fazia. E eu estava tão preocupado (novamente) com todos os aspectos externos - aqueles mesmos dos quais eu não tinha o menor controle. E realizei que eu precisava me ajudar primeiro. Não conseguiria seguir se não estivesse bem. Quiçá ajudar outras pessoas.

Antes que este vire mais um texto de “cagação de regra do isolamento”, auto ajuda, ou algo parecido, gostaria de lembrar que este foi meu caminho. Só recomendo que siga todos estes passos caso seja eu - que eu sinceramente espero que não seja. Mas, se algo do que vou descrever parecer agradável para ti, não há problema algum em dar uma chance, não é mesmo?

Primeiro deixei o quarto que uso de escritório e meu dormitório de um jeito que não fossem me causar qualquer incômodo ou sensação de sufocamento. Mudei coisas de lugar, joguei fora coisas quebradas, doei cadeiras, reorganizei o espaço todo. Pronto: já poderia dormir, descansar e trabalhar sem parecer que o mundo estava fechando em mim. Arrumei o resto da casa. Depois ajustei a rotina. E vi que não conseguiria seguir uma rotina à risca. Mudei a abordagem para que eu tivesse espaços de tempo para fazer alguma(s) coisa(s). Embora tenha períodos definidos, não há uma ordem certa em cada uma delas. Isso me ajudou a não enlouquecer com a robotização da vida:

  • Início da manhã: desjejum, limpeza, banho, notícias, cuidados com os gatos
  • Fim da manhã: lá para umas 9: trabalho, escrita, reuniões, chamadas
  • Intervalo: meio dia, almoço, notícias, meditação, lazer
  • Início da tarde: trabalho, chamadas, estudos
  • Fim de tarde: trabalho, estudos, leituras, lazer
  • Início da noite: cuidados com os gatos, lazer, jantar, banho, meditação
  • Fim de noite: leitura, escrita, estudo, descanso

A partir destes períodos eu encaixo o que for mais oportuno para meu bem estar, mesmo que indiretamente. Coloco meus prazeres também nesse ritmo, como fazer pães, cozinhar ou jogar videogame.

Outra coisa que me ajuda é ter por escrito as coisas que não posso deixar de fazer. É como lista de tarefas, mas não coloco nela coisas que tenho com que me acostumar: somente os itens imprescindíveis que não se repetem (muito). Uso a metodologia Bullet Journal (ou BuJo para os íntimos).

E por último, e tão importante quanto tudo isso: continuar com a terapia.

Defini um ritmo. Isso tirou a pressão de me ater a uma rotina fixa.


Bem estar e liderança

Ok, houve um ponto na terceira semana de isolamento no qual eu consegui dizer para mim mesmo: “agora estou bem”. Consegui dar atenção adequada para minhas atividades profissionais, sem deixar de ter meu espaço pessoal no dia. Outra “grande e assustadora verdade” vinda da terapia: Fazer uma coisa de cada vez. Era muito claro que acumular afazeres e realizá-los juntos não daria certo. No esquema de ritmo que mencionei acima consegui separar as partes do dia para vida pessoal e profissional. Sem deixar débitos para um ou outro. Assim que consegui colocar em dia minhas atividades com a Convenia, comecei a ver cada pessoa para quem trabalho.

Sim, negligenciei o time por praticamente três semanas. Um absurdo. Mas fui incapaz nesse período. Precisei ajustar minha cabeça antes de avançar. E isso me serviu para entender melhor como estava a situação de cada um. Vi quem precisava de mais zelo e tentei entender como estava, o que faltava para ter um certo nível de tranquilidade e agi.

Vale um parágrafo só sobre a Convenia. A empresa é muito ética e desde sempre foi muito transparente, fazendo reuniões semanais com todas as áreas para que todos saibam como está cada parte da empresa - inclusive o caixa. Isso acontece cerimonialmente, desde muito antes da pandemia. E isso é fundamental para a tranquilidade de todos, uma vez que ao longo da crise na qual estamos muitas empresas tomaram como primeira medida cortes de funcionários. Com a informação da saúde financeira e comercial da empresa as pessoas não ocupam a cabeça com a possibilidade de uma surpresa desagradável. E, sem “puxa-saquismo”, digo que admiro muito essa postura. Transparência é algo que, ao menos para mim, é fundamental na administração moderna.

O papel do líder com relação às pessoas do time é prover estrutura para que possam realizar o trabalho de maneira que tenham que se preocupar “apenas” com seu próprio potencial. Eu digo “apenas” pois acredito que o potencial é mutável - pendendo sempre ao crescimento. Prover estrutura deve ser exercido pela liderança ao fornecer o ferramental necessário para o trabalho, garantir o insumo intelectual e dar base emocional para que o trabalho não seja mais uma preocupação, principalmente no momento delicado que vivemos. As vezes uma simples conversa, um “como você está hoje?” faz toda a diferença.

Outro ponto que devemos levar em consideração é que humor é contagioso. Bom ou mal. Se você estiver mal, pode ter certeza que será sentido por aqueles que te seguem. Se alguém para quem você trabalha estiver assim preste atenção, pois caso você não tome alguma ação é muito provável que esse sentimento contamine. O contrário também é verdadeiro: bom humor é contagiante, mas nessa balança você precisa de mais “bom humor”, ou bem estar, para contagiar do que com o sentimento oposto.

Estar bem é primordial para entender o bem estar alheio. É uma sequência virtuosa. Se o seu humor, atenção e psiquê estão bem, com certeza estará com os sentidos mais atentos e empáticos para com as outras pessoas. Aqui não falo só com lideranças, pois um time é composto de, pelo menos, duas pessoas. Olhe seu par, seu colega, as pessoas das outras áreas. Tenho certeza de que, caso esteja bem, poderá olhar seu próximo de maneira mais carinhosa e, quem sabe, poder fazer seu dia um pouco melhor com um simples “bom dia”.

Humor é contagioso. Bom ou mal humor.


Gostaria muito de saber de você o que tem feito nesse período para ficar bem e como tem feito para que o time no qual participa fique bem também. Caso não esteja bem, me conta o que te impede de estar.

Fique bem :)