Salve!

O ano é 2020. Ainda enfrentamos o racismo. E considerarmos nosso próximo como inferior, por qualquer aspecto que não seja a própria discriminação, não faz sentido. E com isso perdemos uma oportunidade incrível de crescer como pessoas e sociedade. Aqui trago um dos principais aprendizados, o qual levo para a vida. E veja só, africano!


Em tempos nos quais temos que enfrentar pandemia, homofobia, machismo e violência além de, ainda por cima, encarar fascismo e racismo. A plenos 2020. E isso é um absurdo.

Há 2 anos escrevi um post sobre empatia e respeito, no qual disserto sobre o quão imbecil é se colocar numa posição de “superior” ante alguém. Naquele post eu foco um pouco mais na questão da mulher e da incapacidade alheia de se colocar no lugar do próximo. E que todos merecem respeito.

Hoje, inspirado pela luta da comunidade negra, quero conversar sobre outro aspecto da diferença no dia a dia. Mantendo a linha de raciocínio de que somos igualmente diferentes e que isso deve ser respeitado e servir de fonte de aprendizado por todos, falemos sobre as consequências de trazer a diversidade para o centro da discussão, transformando nosso dia a dia.

Sabedoria africana

Em 2004, como bom nerd que era, comecei a usar um novo sistema operacional que trazia um nome diferente de tudo que havia conhecido até então. Baseado em sua origem sul-africana e no expoente da luta pelo fim do Apartheid, Nelson Mandela, a distribuição do Linux escolheu uma palavra que traduzisse o valor da humanidade. Desde que conheci essa palavra tudo o que eu conhecia sobre minha relação com outras pessoas, a sociedade e o próprio planeta ganharam outra dimensão.

Ubuntu. Eu sou, pois somos todos. Humanidade para com os outros. Ubuntu é, entre outros, um princípio fundamental da república da África do Sul. É também um princípio humanista. O Arcebispo Desmond Tutu, Nobel da Paz em 1984, descreve o conceito, base da constituição sul-africana:

Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.

Nelson Mandela, Nobel da Paz em 1993, citado acima, comenta o Ubuntu, em vídeo de divulgação da distribuição Linux que leva este nome:

Ubuntu não significa que uma pessoa não se preocupe com o seu progresso pessoal. A questão é: o meu progresso pessoal está ao serviço do progresso da minha comunidade? Isso é o mais importante na vida. E se uma pessoa conseguir viver assim, terá atingido algo muito importante e admirável.

Ubuntu e liderança

O solitário não é capaz de muito. Ninguém é. De pessoas comuns como nós a “líderes” de nação. Pense no seu dia a dia. De quantas pessoas dependeu antes mesmo de acordar? Você teria a capacidade de, sozinho, fabricar o aparelho onde está lendo este texto? Ou mesmo de conseguir o mesmo alimento de sua última refeição sem intervenção de absolutamente nenhuma outra pessoa?

No meu entendimento liderança é, conforme já disse em outra oportunidade, “cuidar bem das pessoas para que atinjamos juntos os objetivos com excelência”. Uma das verdades por trás disso é que você como líder trabalha na estrutura de maneira que o time faça seu melhor. Você trabalha para seu time, não o contrário. Você deve apoiar, desenvolver essas pessoas. Criar o que for necessário para que estas pessoas evoluam.

Já vi vários gestores que podavam seus “subordinados”, tornando suas as descobertas de prodígios em seus times. Outros demitiram funcionários chave quando estes “cresciam demais” - sim, foram estas exatas palavras que ouvi. Este medo de ser “superado” é mais comum do que eu gostaria. Vejo que para muitas pessoas é mais aceitável ser substituído por uma pessoa desconhecida do que por alguém a quem geria. E isso é muito triste.

Como liderança você deve formar as pessoas que te substituirão. Torná-las capazes de assumir a liderança e fazer ainda melhor do que você. Isso não deveria ser um problema, mas sim uma qualidade. Segundo o Ubuntu, é justamente a autoconfiança de trabalhar em um sistema (muito) maior que você mesmo que faz com que isso funcione.

Pense bem: você não deveria ficar de braços cruzados esperando a evolução de alguém a ponto de te substituir. Se, de fato, você é um/a bom/boa líder, você também está evoluindo. Junto com seu time. Se eles evoluem, você evolui também. É um ciclo virtuoso. Você deve se empenhar para ser substituído. E isso é ótimo, pois você também substituirá alguém.

Apoiar as outras pessoas, não somente seu time. Olhar e colaborar com seus arredores. Fazer parte do todo. Tudo isso poderia fazer parte de um discurso de renúncia a si próprio, mas é completamente diferente disso. É fazer parte. Sem deixar de trabalhar por si mesmo, mas fazê-lo com a compreensão de que seu progresso vai muito além de você mesmo.


E você? No que você evoluiu, que fez sua tribo evoluir?


Foto de capa por Damian Patkowski no Unsplash